RESGATANDO A PREGAÇÃO EVANGELÍSTICA

INTRODUÇÃO - Não precisamos de muito esforço para percebermos que há uma ausência de sermões evangelísticos em nossas igrejas e em nossos ministérios. Dificilmente se ouve mensagens que sejam evangelísticas do começo ao fim. O que se vê, na maioria das vezes, é um enfoque evangelístico no final das mensagens, mas não pregações inteiras com o intuito de evangelizar o ouvinte. De fato tem sido um ministério negligenciado. Neste sentido comenta Conrad Mbewe:

Onde estão os sermões que argumentam, explicam e provam, com base nas Escrituras, que Jesus é o Cristo? Onde estão os sermões preparados especificamente para expulsar de cada esconderijo e fenda iníqua os pecadores, até que se prostrem diante da cruz de Cristo? Onde estão os sermões que lutarão contra consciências entenebrecidas, até que estas vejam sua necessidade de reconciliação com Deus, por intermédio de Jesus Cristo? Para onde foram os sermões sobre fogo e enxofre do inferno, pregados nas gerações passadas? Onde estão os sermões semelhantes aos de George Whitefield, aos dos irmãos Wesley, Howell Harris, Jonathan Edwards e Asahel Nettleton?

 

Sem sombra de dúvida há muita necessidade de pregações doutrinária, para edificar e animar os crentes em sua caminhada cristã. Mas estas não devem jamais anular a pregação evangelística.

Na maioria das vezes, quando se quer fazer uma abordagem evangelística nas igrejas, são convidados pregadores evangelistas para pregarem, mas mesmo estes pregadores estão em falta. Quantos pregadores evangelistas nos veem à mente quando buscamos convidar um? São poucos. Tal constatação reforça ainda mais a urgência de que cada um de nós resgate a pregação evangelística em nossos ministérios.

Por que devemos então resgatar a pregação evangelística?

1- A PREGAÇÃO EVANGELÍSTICA É UMA ÓRDEM MUITO CLARA NA BÍBLIA

Em 2 Tm 4.3 Paulo orienta ao jovem Timóteo, e a todos nós, que faça o trabalho de evangelista. Tanto ele quanto nós devemos cumprir cabalmente o ministério a nós dado, e este só pode ser completo se fazermos o trabalho de evangelismo. O ministério seria incompleto para ele e para cada um de nós se não cumprimos o nosso papel de evangelização. Ouçamos novamente Mbewe:

“Em meio ao árduo labor de ensinar aos crentes os fundamentos da fé e como eles devem viver, também precisamos ocupar-nos com labores evangelísticos. Em meio ao trabalho de guiar o povo de Deus à vida eclesiástica apropriada, também precisamos levar pecadores a Cristo. Não devemos realizar somente um aspecto ou outro do ministério. Temos de realizar ambos.”

Neste ponto podemos apontar outro exemplo, o do Apóstolo Pedro, que em meio à sua preocupação com a igreja de Deus e o seu pastoreio tão bem identificado em sua carta, cumpriu também o seu papel de evangelizar. É notável que em sua pregação a Cornélio e à sua família e amigos em Atos 10, ele discorreu sobre todos os pontos que uma mensagem evangelística precisa observar. Que pontos ele destacou?

-Jesus viveu entre nós, andou entre nós, fez parte de nossa história (v.37).

-Ele era o Ungido de Deus entre nós (v.38).

-Ele foi pregado na cruz (39).

-Ele ressuscitou (v.40).

-Ele julgará os vivos e os mortos (v.41)

-O que nele crê será salvo (v.42).

- Todo o plano da salvação fora exposto. O terreno estava preparado para a conversão (v.44).

Podemos e devemos fazer mais do que evangelizar a partir de nossa pregação, mas seria um ato de desobediência não pregar evangelisticamente. Faz parte de nossa chamada ao ministério.

2 - A PREGAÇÃO EVANGELÍSTICA É UMA DEMONOSTRAÇÃO DE SINTONIA COMO O AMOR DE DEUS.

É evangelizando que nos unimos a Deus para a salvação do pecador. Tornamos-nos as mãos de Jesus ao convidarmos os pecadores para se unirem ao Pai.

2 Co. 5.11-

Conforme bem descreveu Spurgeon uma inquietação toma os corações dos salvos que os leva a buscar os perdidos: Dizia ele:

Se você quer ganhar almas para Cristo, sinta uma solene inquietação quanto a elas. Não será possível fazê-las sentir esta inquietação, se você mesmo não a sente. Creia no perigo em que as pessoas se encontram, creia na incapacidade delas, creia que somente Cristo pode salvá-las e fale com elas como se você quisesse realmente tratar sobre isso. O Espírito Santo comoverá essas pessoas, comovendo primeiramente a você. Se você pode ficar tranquilo diante do fato de que elas não estão salvas, elas também ficarão tranquilas. Mas, se você estiver cheio de agonia por essas almas e não puder tolerar que elas se percam, logo você descobrirá que elas também ficam inquietas. Espero que você chegue a tal condição, que sonhe com seu filho ou com seu ouvinte perecendo, porque não têm a Cristo, e comece imediatamente a clamar: ‘Ó Deus, dá-me convertidos, se não eu morro’. Então, você terá convertidos”.

Neste mesmo espírito acrescenta Mbewe

Esta é a razão por que a pregação evangelística está se tornando cada vez mais um ofício perdido. Você, que tem sentido as dores de uma consciência culpada e que tem encontrado paz com Deus; você, que sentiu as inflexíveis algemas do pecado e já encontrou liberdade em Cristo, ofereça esta liberdade aos perdidos, que perecem! Pare de desperdiçar seu tempo tentando comparar as religiões. Por que procurar vida entre os mortos? Proclame o único evangelho até seu último dia de vida. Permita que as pessoas do mundo saibam que podem implorar que Cristo as salve e que podem experimentar o poder salvador dEle. Amém!

Em Romanos Romanos 9.3 Paulo demonstra este amor desesperado pelos judeus ao declarar que preferiria ele mesmo ser condenado, ser considerado um anátema, um maldito, ao ver seu povo ir para o inferno eterno.

Pregadores cheios de amor não se sentirão livres se pregarem apenas sermões que edifiquem a sua igreja, mas sentirão o peso de pregarem mensagens evangelísticas de tempos em tempos.

3 - A PREGAÇÃO EVANGELÍSTICA É A ESPERANÇA PARA UMA PESSOA QUE NÃO OUVIU O EVANGELHO DE MANEIRA CLARA.

Paulo nos informa em Romanos 10.14, Paulo pergunta-nos como uma pessoa pode ser salva se não ouvir a pregação do evangelho? Assevera nesta passagem que o plano de salvação também está submisso à Palavra evangelizadora. A fé salvadora vem pela pregação e pela audição do que Deus está falando. De uma forma indireta o texto está dizendo que ninguém será salvo pelas boas obras, por ter um bom comportamento, por ter boas intenções, por ter todo um sonho, por fazer atos religiosos. Uma pessoa para ser salva, livre de condenação eterna precisará ouvir a Palavra. Jamais uma pessoa poderá ser salva se não tiver a oportunidade de ouvir a Palavra. Qualquer pessoa que ouvir o evangelho estará sujeita a ser salva. O evangelho tem que ser verbalizado para atingir o homem na sua naturalidade e só depois gerar a fé salvadora. Da compreensão à aceitação, do ouvir ao crer, este é o caminho da salvação. A Palavra de Deus é absorvida pela audição, entra na mente, no cognitivo do ouvinte. O Espírito faz a Palavra germinar como uma semente, ela brota e gera a fé salvadora. É este o sentido de Hebreus 4: 12

Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração.

Se no versículo 15 de Romanos 09 está descrito que formosos são os pés dos que anunciam boas novas; podemos dizer que são também formosos os pés dos pregadores que anunciam as boas novas de salvação.

A fé não nasce num vazio. Os missionários são enviados porque a mensagem precisa ser formalizada. Se o crer antecede o invocar, também o ouvir precede o ato de crer. Assim nos ensina J.Stott:

“De acordo com as regras normais da gramática, a expressão aquele de quem deveria ser traduzida como aquele que; seria, portanto, o orador e não a mensagem. Em outras palavras, eles não crerão em Cristo enquanto não o tiverem ouvido falar por intermédio dos seus mensageiros ou embaixadores”.

4- A PREGAÇÃO EVANGELÍSTICA ANIMA O POVO E OS DESPERTA PARA O EVANGELISMO PESSOAL.

Se de vez em quando pregarmos sermões evangelísticos os salvos não se sentirão desconfortáveis, pelo contrário, eles se alegrarão, pois na recapitulação da história da salvação eles relembrarão o que Cristo fez por eles. Conforme bem descreveu Mbeve, eles veem, uma vez mais, a tolice e a futilidade de uma vida sem Cristo, e as fontes de amor por cristo jorram outra vez, ao contemplarem o derramamento do sangue na cruz.

Algumas pessoas ao ouvirem novamente sermões evangelísticos têm o seu primeiro amor renovado. Alguns dizem: Se eu não fosse crente, teria entregado minha vida a Cristo hoje.

E ainda, se os crentes ouvirem do púlpito mensagens evangelísticas eles sentirão impulsionados a evangelizarem também. O que é plantado no púlpito germina na congregação. Assim, mesmo que o lugar mais adequado para a evangelização seja lá fora onde os pecadores estão, devemos fazê-lo também do lado de dentro, tanto para salvar os que ainda não são salvos, como para inflamar os corações do salvos para evangelizarem lá fora.

5- A PREGAÇÃO EVANGELÍSTICA DESAFIA O PREGADOR A PENSAR COM A MENTE DE UM NÃO CONVERTIDO.

Quanto mais tempo de ministério um homem ou uma mulher tem, tanto mais distante estão do pensamento de um não convertido e assim não conseguem falar a linguagem que eles entendem. Na pesquisa feita por Christian A. Schwarz fica claro que depois de alguns anos de ministério os obreiros perdem completamente o contato com pessoas não convertidas e dificilmente conseguem alcança-las para Cristo. No entanto, se os pregadores se esforçarem para pregar sermões evangelísticos eles terão que necessariamente pensar como pensa um não convertido e traçar um caminho para alcançá-lo. Atingir o coração dos crentes é mais fácil do que o coração do pecador, mas o mesmo Espírito que opera no salvo, o faz também no incrédulo, despertando sua alma e sua mente para Deus. Penso que todos os seres celestiais dizem amém quando veem um homem ou uma mulher lutando em oração e em preparo para produzir um serão que fale ao coração do perdido. Isto me faz lembrar do poema de Carlos Drummond de Andrade: Canção amiga

Canção Amiga

Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me veem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois caminhos se procuram.
Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.

Que arte infinitamente mais gloriosa temos nós ao preparar e pregar sermões que penetrem nas almas e mentes dos que ainda não conhecem a Cristo. Não há nada mais importante para ser feito sobre a face da terra.

6- A PREGAÇÃO EVANGELÍSTICA LEVA O PREGADOR A VER JESUS EM TODA A BÍBLIA.

Muitos pregadores reclamam que há poucos sermões evangelísticos na Bíblia. Eu sempre digo: se procuramos bem encontraremos Deus salvando o tempo todo, de Gênesis a Apocalipse. Somente uma preguiça mental não nos deixará encontrar não “icebergs” mas verdadeiras “ilhas” do amor de Deus. A mensagem salvadora já está no Jardim do Édem (Gn 3.15), está no chamado de Abraão, na libertação de Israel do Egito, no cerimonial, no cordeiro pascal, na voz apaixonada dos profetas. Os evangelhos nos mostram três anos de ministério do Senhor Jesus, salvando o tempo todo, pois o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido (Lc 19.10). O livro de Atos tem as pegadas salvadoras de Jesus o tempo todo, até mesmo em aparições maravilhosas ao Apóstolo Paulo. As Epístolas não falam de outro assunto a não ser do amor de Cristo estampado na Cruz. O livro de Apocalipse talvez seja o livro mais evangelístico de toda a Bíblia, pois ali Jesus já reina e há convites maravilhosos para o pecador. Ouçamos novamente Mbeve:

“Outro desafio da pregação evangelística frequente é onde encontrar textos bíblicos para manter esse ministério a cada ano. Neste aspecto, o evangelista itinerante tem a vantagem de poder repetir seus dez “mais poderosos” sermões evangelísticos aonde quer que vá. Como um pastor residente, você não goza desse luxo. Então, como podemos resolver esta questão? O erro que muitos de nós cometemos é procurar apenas os textos bíblicos que contêm temas claros de redenção, ou seja, a Páscoa, o cordão vermelho de Raabe, a serpente de bronze feita por Moisés, etc. Depois de havermos pregado sobre estes textos ou outros textos evangelísticos claros (por exemplo, Isaías 55), nos sentimos emperrados e abandonamos a pregação evangelística. Esta é uma situação bastante infeliz”.

A verdade é que a Bíblia tem bastante material evangelístico para o pastor gastar duas vidas com esse tipo de pregação! Se o espaço deste artigo permitisse, demonstraria isso. Mas quero indicar-lhes um mestre nesta área. Leiam duas das obras do Dr. Martyn Lloyd-Jones: Sermões Evangelísticos (Editora PES, São Paulo) e Sermões Evangelísticos no Antigo Testamento (Editora Banner of Truth, Londres). Estes livros são excelentes exemplos a respeito de como vocês podem usar textos do Antigo e do Novo Testamento para mensagens evangelísticas”.

CONCLUSÃO-

Eu concluo conclamando a cada um, a já nos seus próximos sermões, pregarem mensagens evangelísticas e fazerem isto, regularmente, de tempos em tempos, pelo resto da vida. O resultado só poderá ser um: a salvação de vidas. Ninguém aqui precisa ser o Billy Graham para evangelizar, ou Bill Brith, basta ser um servo obediente e fazer, dentro da limitação de cada um, o trabalho de evangelista.