BRINCANDO DE SER DEUS

Pr. Luiz César

O USO DA CÉLULA TRONCO EMBRIONÁRIA, A CLONAGEM TERAPÊUTICA E A TEOLOGIA.

Com a morte do ator Christopher Reeve, que interpretou o protagonista no filme o Super-homem, e com a aprovação do projeto de Biossegurança pelo Presidente da República, no dia 24 de março de 2005 (Lei 11.105/05), despertou-se em todo o país a atenção para a questão do uso de células-tronco embrionárias e da clonagem terapêutica pela ciência.
Qual deverá ser o nosso posicionamento cristão diante do uso de céluas-tronco embrionárias, ou também chamadas de células mães, ou ainda células estaminais e da clonagem terapêutica?  Devemos ficar eufóricos ou tristes? Comemorar ou chorar? Devemos apoiar a pesquisa ou repugná-la? Para os cientistas e para os que sofrem de doenças degenerativas ou doenças neuromus-
culares, trata-se de uma oportunidade maravilhosa para a cura. Precisamos analisar os referenciais que temos antes de responder. Será que a Bíblia tem algo a dizer sobre este tema?  Para tratarmos destas questões os nossos tópicos serão em forma de perguntas. Através delas queremos olhar para este assunto não com os olhos da ciência, mas com os olhos de Deus, perguntando a Ele em sua Palavra o que ele pensa de tal assunto. Caminhemos então:

I-     O QUE SÃO CÉLULAS-TRONCO?

Células-tronco ou células hemopoiéticas são células primitivas, que dão origem a outras células. Elas são encontradas em embriões, cordões umbilicais e em outros tecidos adultos, como no sangue, na medula óssea, no trato intestinal, etc. As células-tronco têm grande capacidade de auto-replicação, isto é de gerar cópias idênticas. Elas são muito usadas cientificamente para substituir células que o organismo deixa de produzir por alguma deficiência, ou tecidos doentes ou lesionados. Sendo assim, as células-tronco já são usadas em pesquisa para possível ajuda da cura de diabetes, esclerose, distrofia muscular, infarto, Parkinson e Alzheimer.

II- O QUE SÃO CÉLULAS-TRONCO EMBRIONÁRIAS?

As células-tronco totipotentes ou embrionárias são células que podem dar origem a qualquer dos 216 tecidos que formam o corpo humano. No momento da fecundação, quando o espermatozóide fecunda o óvulo, começam as primeiras divisões celulares e surgem as células totipotentes. As células totipotentes existem até quando o embrião atinge 32 a 64 células. A partir daí, forma-se o blastocisto cuja capa externa vai formar as membranas embrionárias, a placenta. Já as células internas do blastocisto, que chão chamadas de totipotentes, vão diferenciar-se em todos os tecidos humano. Até 14 dias depois da fecundação, as células embrionárias seriam capazes de diferenciar-se em quase todos os tecidos humanos. Depois disso, começam a dar origem a determinados tecidos.
As células-tronco embrionárias são as únicas que têm a capacidade de se diferenciar em todos os 216 tecidos que constituem o corpo humano. Todas as demais têm capacidade restrita. A medula óssea, por exemplo, forma apenas as células que formam o sangue, como os glóbulos vermelhos e os linfócitos. A célula-tronco embrionária, por sua, pode se transformar em qualquer célula, daí o grande interesse em sua pesquisa e aplicação.
Uma célula-tronco embrionária é uma célula onde houve a junção do espermatozóide com o óvulo. Já se iniciou nela o processo de desenvolvimento humano. Ao se explorar esta célula é necessário retirar o chamado “botão embrionário”, provocando a destruição do embrião. Este é o grande problema ético deste procedimento.

III - O QUE É CLONAGEM TERAPÊUTICA?

A idéia é extrair uma célula da pele do paciente e com ela fertilizar um óvulo esvaziado. Feitas sob medida para o paciente, as células não seriam rejeitadas. A técnica, a mesma da clonagem da ovelha Dolly, ainda não está disponível para humanos e é proibida no Brasil. O resultado é uma célula híbrida com material genético completo e mostra que a fusão celular pode acarretar uma reprogramação, em estado embrionário, de milhares de genes da célula da pele. Constatou-se que as células híbridas conservam propriedades das células troncas embrionárias, entre elas a capacidade de se diferenciar em múltiplos tipos de células adultas.
A clonagem terapêutica pode ser usada, por exemplo, para fabricar tecidos. A idéia é pegar uma célula, tirar-lhe o núcleo, colocá-lo em um óvulo sem núcleo e ela começará a se dividir. Formando células-tronco com a capacidade de diferenciar-se em todos os tecidos humanos.

IV - O QUE É UM EMBRIÃO?

Para a maioria dos cientistas um embrião é apenas uma “massa celular”, enquanto outros defendem a idéia de que a partir do momento em que as células-tronco de um embrião se desenvolvem a ponto de começarem a formar os tecidos, se pode falar de um ser vivo. Segundo o biólogo molecular Luiz Fernando Reis (CTNbio) é nesse ponto que se retira a célula-tronco, ou seja, o núcleo da célula. A própria ciência tem demonstrado, no entanto, que um embrião possui todo o genoma humano, isto é, nele estão todas as características que o individuo terá quando adulto.
Mas o que é um embrião do ponto de vista bíblico?  Parece que a Bíblia não faz distinção entre a vida real e a vida potencial. Algumas pessoas são tratadas como reais mesmo antes de nascerem. Em Lucas 1:15 se fala de João Batista, que ainda estava no ventre materno, como uma pessoa real. Na concepção, isto é, na junção do espermatozóide com o óvulo, a pessoa já é considerada por Deus como gente. A interrupção da gravidez, por exemplo, é considerada no livro de Êxodo como um assassinato (21:22,23). O Profeta Isaías fala do Senhor que o criou e o formou desde o ventre materno (44:2,24). Desde o ventre o profeta se entendeu como que chamado por Deus para o ministério profético (49:5). Outro profeta, Jeremias, fala que foi conhecido e consagrado por Deus antes de ser formado no ventre materno (1:5). O salmista Davi fala de Deus o tecendo e o formando no ventre de sua mãe. Fala ainda de seu crescimento como de uma semente plantada na terra (Sl139:13-15). O salmista sente o cuidado de Deus para com ele já no período embrionário. Deus se importa com o ser humano mesmo que este seja apenas e ainda um embrião. Todos estes textos demonstram o valor da vida embrionária aos olhos de Deus. O maior valor no entanto se deu pelo fato de Jesus ter vindo ao mundo passando pela forma embrionária, ainda que miraculosamente sem  que tenha havido a coabitação de José com Maria. Quando Jesus veio a ser reconhecido como homem? Parece que já no momento da concepção já foi assim conhecido. (Lc. 1:31-32).  A conclusão a que devemos chegar é que um embrião não é nada menos que um ser humano. Um embrião é um organismo vivo, pertence à espécie humana, é irrepetível e único sobre a terra. Ele ainda não se desenvolveu plenamente, mas já começou a sua trajetória rumo à maturidade e ninguém, senão Deus pode interromper o seu caminho.
O Quinto artigo da Constituição Federal garante a todos o direito à vida. O embrião humano é vida humana, que é garantida pelo Estado Democrático Brasileiro.


V - O QUE DIZ A BÍBLIA?

Apelemos para a Bioética. Todos os homens aprenderam a distinguir a dignidade e o valor do ser humano e a dignidade e o valor das plantas e animais. As plantas e os animais foram colocadas para glória de Deus e para benefício dos homens (Gn 1:30). É lícito se beneficiar de animais e plantas para o nosso bem estar. Quanto à dignidade do homem é diferente. O homem não pode ser vítima de canibalismo, isto é, não pode servir de alimento ao próprio homem. Tomar embriões humanos e transforma-los em remédios é uma espécie de canibalismo. Fere a dignidade desse que foi colocado como o ápice da criação. Tal prática se parece muito com o que o Nazismo fazia com as pessoas, usando-as em experimentos científicos e por fim transformando milhões em sabonetes para uso humano.
Um argumento em favor do uso de céluas-tronco embrionárias muito comum é o de que se usarão prioritariamente os embriões congelados, descartados para o uso de inseminação artificial, embriões estes que serão jogados no lixo. É a teoria do mal menor. Milhares de vidas poderiam ser beneficiadas com o que será em breve descartado. No entanto nem mesmo a fertilização artificial e o congelamento de embriões para fertilização in vitro têm qualquer apoio das Escrituras.
Ouçamos o Arcebispo Elio Sgreccia (Professor de Bioética no Hospital Agostiniano Gemelli, de Roma): A grave conseqüência da fecundação artificial é a destruição dos seres humanos, que são como os demais seres vivos. Em segundo lugar é preciso pensar que filho precisa de um pai e de uma mãe. Deve saber que é daquele pai e daquela mãe que ele recebeu vida. Isto só pode acontecer quando o esposo se torna pai juntamente com a esposa e a esposa se torna mãe com a união conjugal com o marido. Neste encontro maravilhoso se encontram a vida e o amor. Na fecundação artificial quem faz desabrochar a vida é um técnico que toma as células do pai e da mãe, e os põe juntos, com se fossem sementes de ervas do campo. Sabe-se que destas manipulações, alem da perda dos embriões, crescem as más formações dos filhos que nascem. O filho que nasce da proveta, ao qual devemos de qualquer forma muito respeito porque sempre se trata de uma criatura de Deus, jamais saberá quem é seu pai porque seu pai é um técnico. A fecundação artificial semeia o mal porque separa a vida do amor do pai e da mãe, porque leva a morte a muitos embriões, porque priva os filhos da verdadeira maternidade e paternidade que dão dignidade aos filhos.

Segundo a Farmacêutica e bioquímica Alexandra Vieira (Fundação Zerbini), 90% dos embriões gerados por clínicas de fertilização e que são inseridos no útero, nas melhores condições, não geram vida.
Então não é ético usar embriões congelados e descartados para outro uso porque também não é ético até mesmo este tipo de congelamento e descarte de embriões. Assim como não é ético o comércio de embriões humanos que se criará em nome da “ciência” e da "pesquisa”. Sem falar das pesquisas para se criar corpos acéfalos (sem cérebro) para transplantes, para que se diminua o risco de rejeição, como se propõe, por exemplo, com a clonagem terapêutica..
Para a bióloga Claudia Maria de Castro Batista, pesquisadora da Universidade Federal de Rio de Janeiro e PhD e, Biologia das células-tronco pela Universidade de Toronto, a aplicação de células tronco para pacientes com doenças incuráveis tem pelo menos dois grandes riscos a clonagem terapêutica, visto que o embrião é programado por meio de uma célula dada a proliferar e diferenciar-se em mais de 200 tipos celulares. O primeiro é que, se você colocar tais células em organismo humano, vai gerar um tumor. Outro problema é a possibilidade de rejeição. Ela defende a exploração do potencial das células tronco adultas e sublinha que nesse caso, inexiste o risco de câncer e de rejeição. (Correio Brasiliense – 21 de maio de 2005.).

CONCLUSÃO

Todos nós queremos que pessoas com doenças degenerativas, muitas das quais são de nossa própria família, no entanto não podemos concordar que os fins justificam o meio. Deve-se defender o indivíduo (vidas embrionárias) antes da sociedade.

Claude Bernard, afirmou que “O principio da moralidade médica e cirúrgica é nunca realizar um experimento no ser humano que possa causar-lhe dano, de qualquer magnitude, ainda que o resultado seja altamente vantajoso para a sociedade.”. (Bernard c. An Introducion to the study of experimental medicine. New York: Dover, 1957:101.)
Não podemos concordar que milhares de embriões humanos, reconhecidos por Deus como gente, sejam usados como remédios para qualquer tipo de doença. O homem é a glória da criação de Deus desde a sua concepção e não deve ter a sua dignidade destruída mesmo que os fins sejam os mais nobres. Que a ciência seja capaz de alcançar os resultados para os que têm doenças degenerativas, que se desenvolva tanto ao ponto de trazer benefícios incalculáveis aos homens, mas não à custa de outras vidas, ainda que seja apenas um pequeno embrião, mas que em sua essência e aos olhos de Deus, é homem.


Pr. Luiz César Nunes de Araújo