O Discípulo

O CRISTO DO NATAL

Pr Guilherme Z. Paim

Lucas 2. 1-20

Quando vamos nos aproximando do mês de Dezembro, vemos as pessoas, de modo geral, já se preparando para as festas de fim de ano. É possível ver um “clima” natalino no ar, as propagandas trazem uma mensagem natalina, o comércio se prepara para grandes vendas e as famílias marcam seus encontros especiais para um tempo de comunhão fraterna. No meio de tudo isso, é possível perceber que as pessoas veem o natal com uma perspectiva diferente umas das outras.  Alguns veem como uma oportunidade de ganhar um dinheiro extra, outros como um período de descanso e encontro familiar, outros como um tempo de gratidão pelo nascimento de Cristo e assim por diante.  

De modo geral, há três atitudes que são comuns na época de natal: primeiro, a atitude de negar completamente a festa. Estes dizem que é uma festa pagã e não deve ser comemorada, pois ela não tem nada a ver com Jesus, nem mesmo a data, pois Jesus não teria nascido em Dezembro; a segunda atitude comum é a de aceitação completa,  ou seja, alguns cristãos que assimilam completamente o natal da cultura, do Papai Noel, do consumismo, dos exageros nas comidas e bebidas e etc.; a terceira atitude é a de redimir o significado do natal, ou seja, é de aproveitar a data festiva para trazer de volta o verdadeiro significado do natal, enfatizando o nascimento de Cristo para salvação dos pecadores. Muitas igrejas aproveitam essa época para promoverem contatas e cultos evangelísticos e muitos cristãos aproveitam para evangelizar seus familiares. Esta última certamente é a atitude mais adequada que nós podemos ter.

 É certo que vivemos numa cultura em que quase todos sabem que o natal tem relação com o nascimento de Jesus, mas na prática, se comemora tantos outros significados que a mensagem sobre nascimento de Jesus tende a ficar apagada. O texto de Lucas 2.1-20, que traz uma narrativa muito rica, nos apresenta algumas verdades fundamentais sobre o nascimento de Jesus. Tais verdades compõem uma mensagem de esperança que contrapõe às mensagens vazias do natal sem Cristo. A mensagem de Lucas deve ser proclamada pelos cristãos que desejam “redimir” o verdadeiro sentido do natal, aproveitando a data festiva de fim de ano. 

Em primeiro lugar, Lucas apresenta a verdade de que o nascimento de Jesus é um acontecimento histórico (Lc 2. 1-7). O texto diz: “naqueles dias, foi publicado um decreto de César Augusto, convocando toda a população do império para recensear-se.  Este, o primeiro recenseamento, foi feito quando Quirino era governador da Síria” (vs. 1-2). Lucas demonstra de maneira vívida que Jesus não é uma lenda ou um mito. Ele coloca sua narrativa no contexto da história secular, ele cita personagens históricos importantes como César Augusto e Quirino da Síria. Ele parece querer enfatizar a ação de Deus na história, a grande intervenção de Deus na história da humanidade tendo em vista a redenção do seu povo. Com o nascimento de Cristo, Deus dá um toque especial no rumo do mundo. Isso coloca Jesus em oposição a Noel; Jesus é real e histórico, Papai Noel não! Portanto, o natal da perspectiva cristã, diferentemente do natal secular, apresenta um sentido real, pois se fundamenta em um acontecimento histórico.

Nosso Deus é o Deus da história! Ele não apenas entra na história como Jesus homem, mas prepara todo cenário histórico para cumprir suas promessas. Deus aqui usa um decreto de César para fazer com que José e Maria fossem para Belém e ali nascesse Jesus.  Assim, de acordo com Mateus 2.5-6 se cumpriu a profecia descrita em Miquéias 5.2: “E tu, Belém-Efrata, pequena demais para figurar como grupo de milhares de Judá, de ti me sairá o que há de reinar em Israel, e cujas origens são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade”. 

A Bíblia nos ensina que Cristo nasceu no tempo certo, dentro de um contexto histórico escolhido por Deus desde a eternidade: “vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei” (Gl 4.4). A expressão “plenitude do tempo” se refere ao tempo certo escolhido e preparado por Deus para a vinda de Cristo. Cristo não nasceu adiantado nem atrasado, nasceu no tempo certo! Tudo foi preparado por Deus! Isso nos ensina que Deus está no controle da história, inclusive da história da nossa vida. Assim como Cristo “entrou” na história como homem, causando grande impacto na humanidade, ele também entra na nossa história e muda a direção da nossa vida, trazendo a redenção que tanto precisamos. O Jesus narrado por Lucas e pelos demais evangelistas é histórico, real e palpável. Aquilo que é real deve ser levado a sério e, de forma nenhuma, deve ser visto como fantasia ou misturado com ela. No clima de natal é necessário que saibamos separar o histórico da lenda, o que tem sentido e fundamento do que ilusório e vazio. Cristo é real!

Em segundo lugar, Lucas apresenta a verdade de que nascimento de Jesus é motivo de grande alegria (Lc 2.8-14). “O anjo, porém, lhes disse: Não temais; eis aqui vos trago boa-nova de grande alegria, que o será para todo o povo” (vs. 10). Diz-se que, quando em Novembro de 1952 foi detonada em Eniwotek no Pacífico, a primeira bomba de hidrogênio, o seu autor, o americano Edward Teller, soube do sucesso do experimento e declarou cheio de orgulho e alegria: “Nasceu, e é um menino”. Não se tem certeza da veracidade dessa declaração, mas a pergunta é: se alguém se alegra com algo que nasceu para destruição, o que se dirá de alguém que nasceu para salvação? 

Lucas relata a alegria tanto na terra como no céu. A notícia dada aos pastores era de que nasceu um menino para salvação e não para destruição. Por isso, os pastores deviam se alegrar. A primeira reação dos pastores ao verem o anjo e a glória do Senhor foi uma reação de “grande temor”(vs 9). Porém o anjo deixa claro que aquele dia não era um dia de grande temor, mas sim de “grande alegria”(vs 10). Os moradores da terra deviam se alegrar grandemente com a notícia do nascimento de Jesus. Os pastores, que eram rejeitados e tidos como impuros pelos religiosos, que eram considerados ladrões (como de fato muitos eram) e não eram aceitos como testemunhas nos tribunais, por não serem dignos de confiança; a esses homens pecadores foi anunciada a mensagem de alegria. A alegria aqui descrita é a alegria na terra, porque agora os pecadores têm a esperança de salvação!  Nasceu o Salvador! Lucas descreve no mesmo momento a alegria no céu: “e, subitamente, apareceu com o anjo uma multidão da milícia celestial, louvando a Deus” (vs 13). Aquele dia era dia de alegria também no céu. Os pastores puderam contemplar a alegria celestial. O céu se alegra quando os propósitos de Deus se cumprem na terra. Os que louvavam são chamados de milícia, ou seja, um exército. Mas esse exército não veio anunciar a guerra, e sim a paz: “Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens, a quem ele quer bem”(vs 14). A verdadeira mensagem de paz que traz alegria só pode ser encontrada em Cristo. 

O cristão deve se alegrar no natal, mas fazer isso pelo motivo certo, pois a verdadeira esperança veio ao mundo. O dia de natal promete ser um dia de alegria, mas os presentes, a comida, e até os encontros em família, por melhores que sejam, não podem oferecer a verdadeira alegria dada em Jesus. Temos motivos de alegria, pois Deus nos deu esse motivo: Jesus!

A terceira verdade que Lucas apresenta é que o nascimento de Cristo é uma mensagem de Salvação (Lc 2.15-20). “E, ausentando-se deles os anjos para o céu, diziam os pastores uns aos outros: Vamos até Belém e vejamos os acontecimentos que o Senhor nos deu a conhecer” (vs 15). Lucas apresenta o nascimento de Cristo como uma mensagem a ser recebida e transmitida. Pela narrativa, pode-se perceber que os pastores receberam a mensagem do anjo. Eles não desprezaram o que ouviram, mas acataram a mensagem e logo foram para Belém ver os acontecimentos. O texto original sugere que os pastores se apressaram a ir (aparece a partícula de que expressa urgência), isso porque receberam com entusiasmo a mensagem do nascimento de Cristo. No (vs.17) Lucas demonstra que o entusiasmo dos pastores não foi somente quando receberam, mas também quando transmitiram a mensagem: “E, vendo-o, divulgaram o que lhes tinha sido dito a respeito deste menino”.  Eles não guardaram a mensagem só para si, mas divulgaram a todos. Aqueles que ouviram ficaram admirados com a mensagem (vs. 18).

 No natal ouvimos muitas mensagens, muitas são as vozes, os pensamentos e reflexões compartilhadas. Muitas são as mensagens desejando paz, alegria e esperança a todos. Mas biblicamente, a paz, a alegria e a esperança não podem ser uma realidade plena sem Jesus. Mensagens que tentam transmitir essas virtudes sem apresentar a Cristo são mensagens vazias, não são como a mensagem dos pastores que era preenchida com a verdade que é Cristo. 

A igreja deve aproveitar o natal para anunciar o Salvador.  Nossa mensagem deve ecoar mais forte do que as mensagens superficiais do natal sem Cristo. Baseados na Palavra de Deus, podemos conhecer o verdadeiro natal, o qual tem seu sentido em Cristo. Tendo em vista essas verdades, que comemoremos o natal que tem fundamento histórico, que nos alegremos nesse dia de grande alegria e que recebamos e transmitamos essa mensagem de verdadeira paz e esperança: “Hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor”.