Dependências

A Verdade em suas mãos – “Sola Scriptura”

Pr Guilherme Zimbrão Paim

     Um dos cinco Solas da Reforma Protestante diz respeito à Bíblia - Sola Scriptura. O grito da Reforma foi para um retorno às Escrituras como única regra de fé e prática. Esse grito ecoou num contexto em que a voz da Igreja representada pelo Papa era a própria "voz de Deus". A verdade de Deus era o que a Igreja determinava como verdade e não o que a Bíblia dizia. Assim, as Escrituras não eram autoridade final sobre a Igreja, mas a Igreja sobre as Escrituras (ainda o é na doutrina Católica). Por causa dessa inversão, os desvios da verdade, como as indulgências, surgiram aos montes sem nenhuma restrição nem questionamento, pois a verdade não estava nas mãos do povo. Enquanto a postura do apóstolo Paulo foi de elogiar os bereianos por conferirem nas Escrituras se o que ele pregava era a verdade (At 17.11), a Igreja na Idade Média não se permitia ser questionada. A Bíblia não era entregue ao povo, não era traduzida numa linguagem acessível, nem mesmo o povo era educado para ler. Se alguém da elite/clero, que tivesse acesso à Bíblia, ousasse questionar a Igreja,

correria um alto risco de ser condenado à morte como herege!
     Lutero, Calvino e outros reformadores, por outro lado, enfatizavam que "somente a Escritura" é o fundamento da fé. Ela, como Palavra de Deus inspirada, é autoridade sobre a Igreja! A Bíblia, que antes só era acessível praticamente ao clero, começou a ser traduzida e colocada nas mãos do povo. O analfabetismo era altíssimo, então, os reformadores também defenderam que a educação deveria ser para todos, a fim de que fossem alfabetizados e pudessem ler a Palavra de Deus. Tendo a Bíblia em suas mãos, o povo foi conhecendo e sendo liberto pela verdade. Com a educação, aos poucos também passaram a ter oportunidade de se formarem em alguma área do conhecimento e contribuírem para a sociedade como um todo, como defendeu Lutero em alguns dos seus tratados. A Reforma foi um exemplo da relevância da Bíblia, o impacto do resgate do seu ensino há 501 anos restaurou não só a Igreja, mas transformou o mundo! Hoje temos a verdade em nossas mãos, a Bíblia está na estante, no armário, na mesa de centro, na sua biblioteca, no carro, no Smartphone, na internet, nos hotéis, nas livrarias, tem escrita, em áudio, em braile e em várias versões e línguas diferentes! Infelizmente, mesmo diante de todo esse acesso à verdade há muitos cristãos que ainda não a conhecem e continuam sendo enganados pelas antigas heresias, agora vestidas de jeans.

    Vivemos num tempo em que há muitas ideologias e pensamentos contrários à autoridade das Escrituras, alguns desses pensamentos são os seguintes:
• O Papismo, onde o líder religioso tem autoridade acima da Bíblia. O que ele diz é a verdade e somente ele tem a prerrogativa de interpretar corretamente a Palavra;
• O Liberalismo, onde a razão é a autoridade acima a Bíblia. A crítica racionalista é o filtro da verdade, assim, o que não cabe na razão não é considerado, os milagres e a revelação sobrenatural não têm espaço. A consequência é que a Bíblia não é a verdade, mas apenas “contém” a verdade.
• O Secularismo, onde o século é autoridade sobre a Bíblia. Nesse pensamento a Bíblia não é atual, é ultrapassada e precisa ser contextualizada, ou melhor, ser moldada ao século, pois não há verdade absoluta, mas muitas verdades que podem inclusive mudar dependendo do tempo e da época;
• O Humanismo, onde o homem é autoridade sobre a Bíblia. As Escrituras não são vistas como teocêntricas, nem cristocêntricas, mas sim antropocêntrica. O que importa é o homem e seus desejos, ele é o centro e a razão de tudo, o importante é o “eu acho” e não o que Deus diz em sua Palavra, assim Deus é visto como um servo do homem.

    Todas essas ideologias e outras mais estão rondando as igrejas e muitos cristãos acabam se curvando a elas. Na Igreja Católica, a Bíblia continua sem ser a autoridade; ela não crê em “Sola Scriptura”, assim, a tradição, o Papa e o magistério da igreja têm maior autoridade. Segundo o Catecismo da Igreja Católica, “o ofício de interpretar autenticamente a Palavra de Deus escrita ou transmitida foi confiado unicamente ao Magistério vivo da Igreja, cuja autoridade se exerce em nome de Cristo, isto é, foi confiado aos bispos em comunhão com o sucessor de Pedro, o bispo de Roma” (CIC 85). Os fiéis continuam sem poder questionar os equívocos e heresias da Igreja Romana, o Catecismo fecha essa possibilidade ao afirmar que os cristãos leigos não têm o ofício de interpretar a Palavra de Deus.  A verdade não está nas mãos do povo, nem mesmo nas mãos dos sacerdotes de “mais baixo escalão”, mas somente nas mãos da cúpula da igreja – isso também demonstra que a Igreja Católica não crê no sacerdócio universal dos crentes. Consequentemente, não há, por parte da igreja, incentivo para que os fiéis leiam a Bíblia; ela pode até ser lida, mas com fins de devoção e nunca para questionar a Igreja.

     Por outro lado, muitos cristãos que se dizem herdeiros da “reforma” e se denominam “evangélicos” – e não o são - mesmo com tanto acesso à Bíblia, seguem dentro de muitas igrejas onde as heresias estão em alta. As vendas de indulgências estão acontecendo escancaradamente nas "sessões de descarrego", nos "Shows da fé" e nas "concentrações de milagres". O papismo está dentro de muitas “igrejas”, homens que se autodenominam bispos, apóstolos e patriarcas são os "Papas gospel", que não podem ser questionados pelos fiéis...tão infiéis à Palavra de Deus! O que os tais apóstolos dizem é aceito por muitos como a verdade de Deus, mesmo que esteja em clara contradição com a Bíblia. Ainda é preciso dizer que as heresias nem sempre se apresentam à luz do dia, às vezes entram sorrateiramente pelos famosos métodos de crescimento da igreja, pelo liberalismo teológico, pelas experiências elevadas ao grau de autoridade que só a Bíblia deveria ter, pelas músicas e por muitos outros meios.

    A falta do conhecimento da verdade é o que tem levado a muitos seguirem e aderirem às heresias. Na grande maioria dos casos a razão de tantos erros não é a falta de acesso a Bíblia, mas o próprio coração “enganoso” (Jr 17.9) e falta de compreensão de que a Bíblia é a autoridade sobre a Igreja e não o contrário. É preciso compreender que não é a igreja que determina o que as Escrituras ensinam, mas as Escrituras é que determinam o que a Igreja deve ensinar.

     Todo cristão deve ter a Bíblia como Palavra de Deus inspirada e inerrante, ela é a verdade que nos apresenta Cristo e o verdadeiro Evangelho fielmente, ela é a autoridade sobre nossa vida! McGrath afirma que “o protestantismo, em seu cerne, representa um constante retorno à Bíblia para revalidar e, quando necessário, reformular suas crenças e valores, recusando-se a permitir que alguma geração ou indivíduo determine o que é definitivo para o protestantismo como um todo.” (Alister McGrath, Revolução Protestante). É preciso ter consciência da necessidade que igreja tem de reavaliar constantemente as suas crenças à luz das Escrituras, afinal, “Igreja Reformada sempre se reformando” - Ecclesia Reformata et Semper Reformanda est.

     Os cristãos devem aprender a amar a Palavra, como o salmista que dizia: “quanto amo a tua lei” (Sl 119.97); devem estudá-la como crentes de Beréia “que eram mais nobres que os de Tessalônica; pois receberam a palavra com toda a avidez, examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim.” (At 17.11); devem ensiná-la com fidelidade e dedicação como Jesus ordenou “ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado” (Mt 28.20); e devem se submeter a ela, sendo “praticantes da palavra e não somente ouvintes” (Tg 1.22). Os cristãos têm a verdade em suas mãos, mas também devem tê-la suas mentes e corações!