História

A Adoração Neo-Testamentária

Pr. Glauco Pereira

“Deus é espírito; e importa que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade” (João 4.24).

Por algum motivo Jesus deixa a Judéia e vai para a Galiléia (v.3). Havia um caminho mais longo e um mais curto. Este obrigava o viajante passar por Samaria (v.4). Chegando na região, Jesus parou diante de um poço para beber água. Nessa parada encontrou uma mulher que veio tirar água do poço. Daí por diante o texto da Bíblia revela um diálogo entre Jesus e uma mulher samaritana. Conforme o texto, o diálogo se desenvolve em torno de uma promessa de vida eterna (v.14). Percebendo o coração da mulher Jesus desvenda sua vida particular.

A reação da mulher é surpreendente. Ela confessa Jesus como profeta, e Ele o é! Depois lança uma questão que vai conduzí-los a um outro assunto: Como deve ser a adoração? Como em Samaria ou a de Jerusalém? (v.20)



1.    O contexto da adoração em Samaria.

O contexto bíblico/histórico demonstra que o problema discutido entre a mulher e Jesus teve início “quando Oséias conspirou contra Salmanasar, rei da Assíria. Samaria, a capital de Israel, foi sitiada pelas tropas assírias por três anos e, posteriormente, seus moradores foram transportados para a Assíria (2 Rs 17.3-6). Isto aconteceu em 722 a.C. Somente os pobres puderam ficar em Israel (Jr 39.10). Logo, vieram também estrangeiros e se estabeleceram na região devastada. Diz a Bíblia que: “O rei da Assíria trouxe gente de Babilônia, de Cuta, de Hamate e de Serfavaim, e a fez habitar nas cidades de Samaria, em lugar dos filhos de Israel; tomaram posse de Samaria e habitaram nas suas cidades” (2 Rs 17.24). Da mescla com a população que havia ficado, surgiu uma nova raça denominada de samaritanos (nome derivado de Samaria, a metrópole fundada por Onri, pai de Acabe, por volta de 880 a.C.

No princípio, quando os estrangeiros passaram a habitar em Samaria, eles não temeram ao Senhor; pelo que o Senhor mandou leões invadirem suas terras, os quais mataram a alguns do povo. Com razão atribuíram esta praga à ira de Deus. Então, rogaram ao rei da Assíria que enviasse um sacerdote israelita para lhes ensinar “como servir o Deus da terra”. Por essa razão, surgiu em Samaria um culto sincrético, contendo costumes pagãos.
 
No livro de Esdras, nos capítulos 3 e 4, a Bíblia revela que quando uma parte dos judeus voltou à terra, construiu-se um altar para o holocausto e pôs-se os fundamentos do templo. Samaritanos zelosos e seus aliados interromperam as obras porque negaram a eles a permissão de cooperar na reconstrução. A petição dos samaritanos foi: “Deixa-nos edificar convosco, porque, como vós, buscaremos a vosso Deus, como também já lhe sacrificamos desde os dias de Esar-Hadom, rei da Assíria, que nos fez subir para aqui”. A resposta que receberam foi a seguinte: “Nada tendes conosco na edificação da casa do nosso Deus”. Ao receberem esta dura resposta os samaritanos passaram a odiar os judeus. Logo começaram a construir seu próprio templo no monte Gerizim. Porém, João Hircano, um dos reis macabeus, destruiu este templo em 128 a.C. Os samaritanos, não obstante, continuaram adorando em cima da montanha, onde haviam erigido o templo sagrado.  Isso também atraiu mais o ódio dos judeus (v.9). A adoração em Samaria era simbólica e ritualística, envolvendo costumes pagãos, parecidos aos cultos a Baal e seguindo aspectos do culto prescrito na lei.



2.    O contexto do culto em Jerusalém.

Em relação à Jerusalém, está bem registrado que os judeus rabínicos mantiveram o que era de costume no culto do templo; os sacrifícios, altar e todas as representações simbólicas da lei de Deus. Nesse texto de João, percebe-se que Jesus reconhece a adoração em Jerusalém como legítima, porém revela uma descontinuidade na adoração judaica. Ele estabelece um novo padrão de adoração, de culto público. Essa mudança acontece em sua própria pessoa como legislador de uma nova aliança. “Mas vem a hora e já chegou” (v.23). Agora não será mais nem como em Samaria e nem mesmo como em Jerusalém (v.21). Segundo Howard Marshall: “... embora Jesus reconheça a superioridade do judaísmo sobre o samaritanismo, ambos são substituídos por um novo modo de se chegar a Deus, o qual ocorre no reino do espírito e repousa na nova e verdadeira revelação de Deus em Jesus” .

3.    O culto na Nova Aliança.

Se houve mudança, então a pergunta continua: Como deve ser a adoração? Há duas respostas que revelam a essência, o ideal de Deus para a adoração/culto público no novo testamento:

a) A adoração verdadeira é em espírito – v. 23-24. Essa adoração é baseada no próprio Ser de Deus – “Deus é espírito”. Os A.W.Tozer e James Snyder no livro Desenhados para Adorar (Cap. 10), contribuem muito dizendo que: “A verdadeira adoração está em acordo com a natureza de Deus. Com isto quero dizer que adoramos a Deus conforme aquilo que Ele é, e não de acordo com o que não é”.

Isso quer dizer que Ele é uma personalidade invisível, eterno, que preenche todas as coisas, um ser infinito. Não está limitado a existência, mas é o Soberano Deus. A adoração não cabe mais a um local geográfico e nem mesmo a padrões de representatividade simbólica, com raras exceções.

Essa adoração apresentada por Jesus é baseada na fé; ou seja, “adorem em espírito”. O Apóstolo caminha com essa interpretação: “Que farei, pois? Orarei com o espírito, mas também orarei com o entendimento; cantarei com o espírito, mas também cantarei com o entendimento” (1Cor 14.15). Essa é a disposição interior de acreditar plenamente em Deus e se apropriar da fé para ter comunhão íntima e real com Ele (Hb 11.1).
 
Sendo assim, nossa adoração é baseada naquilo que não se vê e também não se representa por objetos materiais. A verdadeira adoração é bendizer, exaltar e reverenciar apenas confiando Nele, sem ver nada e nem tocar em nada. “Disse lhe Jesus: Porque me viste, creste? Bem aventurados os que não viram e creram” (Jo 20.29). “Não atentando nós nas coisas que se vêem, mas nas que se não vêem; porque as que se vêem são temporais, e as que se não vêem são eternas” (2Cor 4.18).

b) A adoração verdadeira é em verdade. O que é a verdade? Foi a pergunta de Pilatos para Jesus (Jo 18. 38). Jesus havia afirmado que veio ao mundo para testemunhar da verdade (v.37). O evangelho de João revela que o próprio Jesus é a verdade (Jo 1.14; 14.6). Conforme o próprio Evangelho, a verdade é uma Pessoa – Jesus. Sendo assim, a adoração/culto público deve ter como objetivo considerar a vida e obra de Jesus Cristo.

Outra observação é importante: O Espírito Santo é o Espírito da verdade (Jo 14.17), Ele sempre nos conduz a Cristo e a vontade de Deus em Cristo. Nossa adoração/culto público não pode excluir a pessoa de Cristo. Há uma relação, um mover trinitário na adoração. O Filho nos dirige ao Pai, O Espírito revela e nos conduz a Cristo e o próprio Cristo nos outorga Seu Espírito, pois Ele nos batizou com o Espírito Santo.

A verdade também é a Escritura. O próprio Senhor Jesus na oração sacerdotal declara: “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17.17). A Escritura como palavra de Deus é a verdade escrita que nos conduz a verdade pessoa – “Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim” (Jo 5.39). Outro texto importante diz: “Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (2Tm 2.15).

Assim como a adoração não pode excluir o Senhor Jesus, também não pode excluir à Escritura, pois ela é a autoridade verdadeira que revela a vontade da Trindade em receber a adoração no culto público. O Deus da Bíblia não é semelhante aos deuses e nem mesmo qualquer coisa que o ser humana deseja adorar. Ele é um Deus zeloso, santo e cuidadoso com sua própria adoração. Por isso, o culto público em todos os seus detalhes e liturgia precisa ser um culto bíblico e não pode ser objeto de invenções humanas e tradições que são fruto das superstições religiosas.


Concluindo, para o Senhor Jesus, o culto requerido pelo Pai é um culto em espírito e em verdade; ou seja, uma vida pela fé no Filho de Deus, onde se expressa a confiança plena em Deus e obediência à Sua Palavra. Não um culto por vistas ou de acordo com nossas vontades, mas um culto que somente O agrade!

O culto a partir da revelação de Jesus Cristo expressa bem o viver pela fé. O texto sagrado que diz “o justo viverá pela” (Hc 2.4; Hb 10.38), também se aplica muito bem ao contexto de culto. Se na antiga aliança era essencial a fé mesmo nos atos representativos, muito mais agora sem objetos sagrados.

O propósito de Deus em oferecer meios visíveis no passado (sistema sacrificial) para seu culto se cumpre plenamente na Pessoa de Cristo. Ele é a representação da divindade e estabelece um culto sem representações, exceto batismo e ceia. O apóstolo Paulo, movido pelo Espírito, ao explicar essa questão de fé, afirma que “tudo o que não provém de fé é pecado” (Rm 14.23). Um culto que se utiliza de objetos representativos ou outros meios como instrumentos de motivação (novenas, entretenimentos, entre outros) e não a fé apenas, produz superstição e idolatria, o qual é pecado diante de Deus.

O culto cristão evangélico dever ser apenas pela fé, motivado pela sinceridade espiritual e pela verdade da Escritura. O que produz a fé verdadeira e a alimenta é a pura pregação da Palavra de Deus.